por M.L.
No segundo turno das eleições o Brasil teve a segunda oportunidade de salvar a democracia e venceu. Lula terminou o primeiro turno atrás do candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, contrariando as pesquisas. Confiando nos números que favoreciam à Lula, praticamente não houve campanha. Além disso, no parlamento, a extrema direita ganhou maior projeção tanto no Senado, quanto na câmara dos deputados. O novo presidente também teria poderes para declarar impeachment de juízes da Suprema Corte e indicar 4 novos, obtendo maioria no judiciário. Uma vitória da extrema direita lhe daria poderes absolutos, já que teria sob seu controle o poder executivo, legislativo e judiciário.
No dia seguinte à apuração do primeiro turno o clima era de luto e medo pois jamais na história do Brasil houve virada no segundo turno e o crime organizado e o fascismo batia à nossa porta.
Confiante na vitória, a extrema direita anunciou abertamente suas intenções: copiar o modelo econômico Argentino, mexer na constituição e por meio disso tomar o poder e retirar direitos de idosos e mais pobres, com impacto significativo no meio ambiente, na saúde, na previdência e na educação brasileiras. Também estava em risco nossa soberania, pois Flávio Bolsonaro, havia feito acordos com os EUA, por meio de Marco Rubio, de entregar nossas riquezas em troca de apoio para ganhar as eleições. Tratava-se de um candidato envolvido em vário escândalos de corrupção e relação com milícias armadas.
A esperança veio das ruas e se espalhou pelas redes sociais. Os estudantes universitários e secundaristas iniciaram um movimento que se espalhou por cidades, por bairros inteiros. Logo se juntaram os trabalhadores. Em poucos dias, a defesa da democracia e da soberania brasileira tomou o espaço público e as redes sociais unindo todos os espectros políticos. Os idosos também se mobilizaram. Não foi apenas a esquerda que esteve nas ruas. Estavam os que queriam um país onde todos pudessem existir e viver. Foram atos alegres, musicais, de celebração da vida! Tudo que a extrema direita abomina.
Entendemos que para vencer esta batalha, precisávamos unir ações nas ruas e nas redes. Um deputado brasileiro, André Janones, criou um canal de whatsapp que chegou a ter 10 milhões e 800 mil seguidores em poucos dias. O exército de Lula, tornou-se um canal único de divulgação e orientação sobre como lidar com as redes sociais. Entendemos que, para vencer, era preciso dominar as ruas e as redes. Entendemos como os algorítimos agiam e atuamos para enganar o sistema das bigtechs. Não demorou para entender que as Bigtechs estavam controlando nossas publicações, dificultando compartilhamentos e não estava entregando os conteúdos. As pessoas então passaram a produzir pequenos vídeos, falando sobre perda de direitos, soberania, risco de ditadura, planos econômicos de Milei, alertas ao povo sobre os perigos que corríamos. A orientação para derrubar o algoritmo era: Jamais curtir, comentar ou postar em qualquer publicação da extrema direita. Jamais defender-se nas redes dos adversários. Os internautas deveriam em cada publicação progressista curtir, comentar, repostar, compartilhar e salvar cada post do campo democrático. A mobilização de 10 milhões de pessoas no “Exército do Lula” e em suas redes privadas garantiu o domínio das redes sociais em poucos dias. A principal campanha foi que cada um buscasse mais um voto. Lula precisava em torno de 2 milhões de votos para vencer. Conseguimos cerca de 10 milhões de votos, o que o colocou à frente por uma diferença em torno de 4 milhões.
Esta não foi uma vitória qualquer. Vencemos o boicote de empresas que na região nordeste tiraram o transporte público de circulação. Voos foram cancelados para a região nordeste onde Lula tinha mais votos. No TSE ( Tribunal Superior Eleitoral), o presidente foi indicado pelo governo Bolsonaro e atuava em favorecimento à campanha de Flávio. Vencemos o controle e poder das Bigtechs que estavam favorecendo a campanha da extrema direita. Vencemos Donald Trump, que nos bastidores estava financiando a campanha, como denúncias já apontam. Vencemos a mídia brasileira que estava orientada a favorecer Flávio. Vencemos a elite brasileira que já tinha seu lado definido.
Vencemos a eleição, mas temos desafios importantes: unificar o país dividido por influência de fake News e discursos de ódio. Retomar a compreensão da luta de classes que está no centro deste jogo perverso da extrema direita. Fazer com que não só o Brasil compreenda, mas o mundo entenda que não se trata de Lula ou eleições contra a extrema direita. Trata-se de compreender que há uma nova onda de disputa imperialista que, para atingir seus objetivos, nos divide, nos desumaniza e nos explora. Nosso desafio é, independentemente de eleições, conseguir ampliar o debate e refletir sobre o tipo de sociedade que queremos.
M.L. é uma sindicalista brasileira que começou sua trajetória em um armazém do setor citrícola e tornou-se presidente de sindicato. Atualmente, ela atua como organizadora e formadora na Transnational Information Exchange (TIE Global). Ela já trabalhou em diversos países da América Latina e da África.
English version here

